85 · Tanzânia · Construído c. 1100

Kilwa Kisiwani

Uma cidade construída em coral, enriquecida por um ouro que nunca viu.

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A História

A Grande Mesquita em pedra de coral: um campo de cúpulas sobre arcaria ogival

A algumas centenas de metros da costa da Tanzânia há uma ilha pequena. Nela erguem-se uma mesquita de cúpulas caídas, a ruína de um palácio voltado para o mar e muros comidos pelo vento salgado. O lugar chama-se Kilwa Kisiwani: Kilwa a da ilha.

O material desses muros é incomum: coral. A pedra de coral cortada do recife sai mole e pode ser lavrada com uma lâmina; endurece ao contato com o ar. A cidade foi extraída do mar que tem à frente.

Uma Cidade-Estado No Litoral

Kilwa foi uma das cidades-estado suaílis enfileiradas pela costa da África oriental. Essas vilas não pertenciam a um império; cada uma governava seu porto, seu soberano e sua rede de comércio. O que partilhavam era uma língua — o suaíli — e um calendário ditado pela monção.

A monção é o motor desse comércio. Durante parte do ano o vento sopra de nordeste e traz até a costa africana os veleiros da Arábia, da Pérsia e da Índia. Meses depois inverte e leva esses mesmos barcos de volta. Isso significa esperar meses entre a chegada e a partida, e essa espera transformou as vilas costeiras em lugares de pouso e armazenamento.

A partir do século XI Kilwa tornou-se um dos nós mais ricos da rede. Cunhou moeda própria: as moedas de cobre achadas nas escavações trazem os nomes dos soberanos da vila.

A mina do interior, a estrada de caravanas, o cais de Kilwa e sua balança

O Ouro Que Nunca Viu

A riqueza de Kilwa não saiu do próprio chão. O principal ganho era o ouro, e o ouro não era extraído na ilha, e sim muito mais ao sul e muito mais para dentro, no planalto do atual Zimbábue. De lá descia por caravana até a costa, ao porto de Sofala.

O que Kilwa fazia não era explorar a mina, mas controlar a linha que levava a Sofala. Um mercador vindo do norte tinha de passar pela licença de Kilwa e pelos navios de Kilwa para chegar ao ouro. A vila enriqueceu não por produzir, mas por estar no meio.

Esse detalhe liga-se diretamente a outro monumento deste registro: no lugar de onde vinha aquele ouro erguiam-se os muros de pedra do Grande Zimbábue. Os dois nunca se viram, mas estavam nas pontas opostas do mesmo comércio.

Mesquita, Palácio, Banho

A primeira fase da Grande Mesquita remonta ao século XI; nos dois séculos seguintes foi ampliada e coberta com cúpulas e abóbadas. Concluída, era a maior mesquita da África subsariana.

No início do século XIV o sultão al-Hasan ibn Sulaiman levantou Husuni Kubwa num promontório fora da vila: um complexo de palácio e armazéns em terraços, com cerca de cem cômodos, debruçado sobre o mar e com uma piscina octogonal dentro. O edifício nunca foi concluído e logo depois foi abandonado. Não se sabe por quê.

O viajante marroquino Ibn Battuta, que passou por aqui em 1331, descreve Kilwa entre as vilas mais bem construídas que tinha visto.

Hoje

Em 1505 uma frota portuguesa saqueou a vila e ergueu um forte. As rotas comerciais mudaram, o papel intermediário de Kilwa se desfez e nos séculos seguintes a vila encolheu e se esvaziou.

O sítio entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1981 e ficou na lista de perigo entre 2004 e 2014. A ameaça aqui vem direto da água: a erosão das ondas come a linha da costa, o sal penetra na pedra de coral e a esfarela, e a subida do nível do mar pressiona os alicerces das construções do cais. O material de que a cidade foi feita saiu da água que agora a consome.

Onde Fica

Kilwa
Tanzânia

Kilwa Kisiwani island, Lindi Region

-8.9575, 39.5236