Registro De Titulares
O registro está vazio. Quem reivindicar primeiro fica escrito aqui para sempre — a partir de US$ 3.
A História
O que era preciso fazer era simples: apoiar a mão esquerda na rocha fria, não mexê-la e esperar enquanto sopravam pigmento à sua volta. Um tubo de osso, um bocado de mineral moído e um sopro. Ao retirar a mão, o que ficava na parede não era a mão, mas a tinta em torno dela: um negativo.
Na parede de um cânion estreito aberto pelo rio Pinturas, na província de Santa Cruz, no sul da Argentina, isso foi feito cerca de duas mil vezes. As mais antigas passam dos nove mil anos. Entre as primeiras e as últimas há milênios, o que significa que isto não é obra de uma geração, mas um lugar ao qual se voltou repetidas vezes.
Por Que Aqui
Esta parte da Patagônia é estepe aberta, ventosa e sem árvores. O cânion do Pinturas é um entalhe profundo cortado nessa planura, e oferece duas coisas: água e abrigo do vento. Sob uma saliência da parede do cânion corre um terraço longo, protegido de chuva e intempérie.
Quem o usou eram caçadores-coletores, e sua presa principal era o guanaco, o camelídeo selvagem da região. O estreitamento do cânion também ajuda a caça: dá para tocar uma manada para uma linha apertada. Parte das pinturas nas paredes mostra exatamente isso — manadas de guanacos, figuras que as cercam, armas em voo.
A Tinta Em Si
As cores vêm de minerais locais. Vermelho e roxo do óxido de ferro, branco do caulim, amarelo da natrojarosita, preto do óxido de manganês. O mineral é moído, misturado a um aglutinante e depois pulverizado na superfície soprando-o por um osso oco.
Essa técnica dá resultado diferente do de pintar sobre a mão. Tinta aplicada na mão deixa a marca da mão; tinta soprada em volta colore o lugar onde a mão não está. Cada figura naquela parede é o negativo de um momento em que uma mão esteve ali apoiada.
O pigmento penetrou nos poros da rocha, e o clima seco da região fez o resto: nove mil anos depois, as cores ainda se leem.
Quase Todas Esquerdas
O detalhe mais notável de Cueva de las Manos aparece quando se conta. A esmagadora maioria dos estarcidos é de mãos esquerdas.
Há uma explicação sensata, e não é preciso outra: uma pessoa destra segura e sopra o tubo com a direita, o que deixa a esquerda para ser apoiada na parede. Então a proporção nos diz que a grande maioria de uma comunidade que viveu há nove mil anos era destra — resultado condizente com as proporções que vemos hoje.
Um segundo detalhe está no tamanho das mãos. As medições sugerem que uma parcela considerável dos estarcidos não pertence a adultos, e sim a adolescentes. Daí se deduziu que a prática se ligava a algum momento de passagem ou iniciação, mas isso é interpretação, não registro. Essa gente não deixou escrita. O que deixou foi onde estavam suas mãos.
Hoje
O sítio entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1999. O principal problema de conservação não é o desgaste natural, e sim as pessoas: nomes e tintas riscados sobre a superfície em décadas passadas causaram dano permanente. Hoje há passarelas e barreiras diante da parede, e as visitas são guiadas.
O isolamento da área ao mesmo tempo protege e complica. A cidade mais próxima fica a mais de cem quilômetros, o que mantém baixa a pressão de visitantes mas também dificulta a fiscalização regular. O cânion continua fazendo o que o tornou abrigo há nove mil anos: corta o vento.
Onde Fica
Cañadón del Río Pinturas, Santa Cruz
-47.1531, -70.6586