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A História
Em algum momento do século VI a.C., um grupo de soldados gregos e cários em marcha para o sul ao lado do exército egípcio parou em Abu Simbel e gravou inscrições na perna de uma estátua colossal sentada. Escreveram em grego, registrando a distância percorrida rio acima, nomeando seu comandante e assinando seus nomes. Essa inscrição permanece visível até hoje e representa um dos mais antigos textos gregos substanciais já descobertos.
O fascinante é a escala do tempo: aqueles soldados já chegaram cerca de setecentos anos tarde demais para ver o templo recém-construído. Para eles, era um monumento milenar na fronteira do mundo conhecido, exatamente como é para nós hoje. Abu Simbel tem sido uma ruína admirada por alguém durante quase toda a sua existência.
Um Faraó Que Esculpiu Uma Montanha
Ambos os templos foram escavados diretamente em um penhasco de arenito durante o reinado de Ramsés II, em meados do século XIII a.C. O templo maior é dedicado a três deuses do Estado e, com notável imodéstia, ao próprio Ramsés. Quatro imponentes estátuas sentadas do faraó dominam a fachada, cada uma com cerca de vinte metros de altura. O templo menor ao lado pertence à sua rainha Nefertari e à deusa Hathor.
Esse segundo templo é um marco histórico: na arte egípcia, as rainhas costumavam ser representadas na altura dos joelhos do faraó. Nesta fachada, no entanto, as estátuas de Nefertari têm a mesma altura das do rei, uma decisão monumental que desafiou milênios de tradição.
A localização era estratégica: Abu Simbel guardava a fronteira sul do Egito diante da Núbia. Quem subisse o Nilo deparava-se primeiro com aquelas quatro imensas faces. No interior, as paredes exibem baixos-relevos grandiosos da Batalha de Kadesh, com Ramsés sozinho em sua carruagem dizimando as forças hititas.
Duas Vezes Por Ano, Ao Amanhecer
A característica mais célebre do grande templo é um cálculo astronômico preciso: duas vezes ao ano, em fevereiro e outubro, o sol nascente alinha-se perfeitamente com a entrada, percorre um corredor de cerca de sessenta metros de profundidade e ilumina as estátuas sentadas no santuário mais íntimo. Três das quatro figuras são banhadas pela luz; a quarta, o deus Ptah, associado ao submundo, permanece na única sombra que o sol nunca alcança.
Serrando A Montanha
Em 1959, todo o complexo estava condenado a ser submerso pela represa de Assuã. O Egito e o Sudão pediram socorro à UNESCO e cerca de cinquenta nações uniram-se na maior operação de resgate arqueológico da história. Ao contrário de outros templos, Abu Simbel não era um edifício sobre a rocha, mas uma cavidade escavada no coração da própria montanha.
A solução foi serrar o penhasco em blocos gigantescos com serras manuais finas para preservar os relevos esculpidos. Os blocos chegavam a pesar mais de vinte toneladas cada. Foram numerados, içados por guindastes e transportados cerca de duzentos metros para trás e sessenta e cinco metros acima. Para sustentá-los, engenheiros ergueram uma colossal cúpula oca de concreto armado coberta por rocha artificial. As obras terminaram em 1968, com mais de mil blocos remontados com precisão milimétrica.
A parte superior de um dos colossos, que havia desmoronado séculos antes em um terremoto, foi transportada em pedaços e deliberadamente remontada no chão da mesma forma original, preservando as cicatrizes históricas da ruína.
Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1979, Abu Simbel permanece de pé como uma das maiores vitórias da cooperação internacional e da engenharia moderna.